E debaixo de um sol quente parada em um semáforo que desafiava as leis da paciência, observei quando um homem de cerca de sessenta anos, maltrapilho, com grossos pés descalços e uma faixa vermelha presa em sua testa (que me trouxe a' mente a imagem do Rambo), após uma saudação tirada das artes marciais, começou a executar movimentos de karate em frente aos carros parados.
Confesso haver estranhado esta imitação tropical de Daniel San, mais ainda quando o pseudo-lutador esparcou em pleno asfalto escaldante e áspero.
"Que pessoa louca", pensei em voz inaudível ante a inusitada execução dos golpes de luta.
Mas o que e' a loucura da mente daquele senhor frente a sanidade que este mundo lhe oferece?
Uma sanidade pautada na indiferença com que moradores de rua são tratados por carros e casas; cujo solo infértil e' calcado diariamente por catadores de lixo e sucatas que ao final do dia pouco mais conseguem do que restos de comida e contáveis trocados; cujo alimento diário e' a barriga vazia de cada brasileiro que repousa seu corpo cansado sob jornais velhos, na expectativa de que o amanha lhe traga ao menos uma ou duas moedas ou um prato de comida quente.
Melhor a loucura, pois neste mundo a parte ainda se consegue ostentar um sorriso falhado e completo de agradecimento ao receber alguns trocados de uns poucos motoristas.
E assim aquele lutador de karate imaginário saiu de seu palco embaixo daquele semáforo para o real cenário dos seus dias, onde a única solução que parece haver para sua fome diária e' tentar imitar a arte em lugares ásperos (como a sua vida) e quentes (como e' o prato de comida com que ele sonha a cada noite).
Vila Velha, 21 de dezembro de 2010.

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