domingo, 6 de fevereiro de 2011

A fragrancia da humanidade

 
   Pastor de terno e gravata pregando sobre o melhor lugar do mundo para se estar, culto jovem lotado, ar condicionado ligado, um desfile incessante de roupas, sapatos e bom gosto: este era o cenário de um culto no sábado de manha, em minha igreja, no qual tomei assento ao lado de uma amiga.
   Concentrada que estava nas palavras do pregado, não percebi a mudança de odor que tomou conta do ambiente, que passou de Dior's, Channel's e Calvin Klein's a um cheiro um tanto quanto desagradável de falta de banho e roupas sujas de urina.
   Quase todas as almas cristianizadas ocupadas demais com as unhas e o brilho dos sapatos perceberam, mas eu - que ate então tentava "ir" para o melhor lugar do mundo - não fui envolvida pela mudança no ambiente.
   Minha amiga, que irei chama-la de -simplesmente - "amiga", segredou-me liquidificadoramente:
   "- Amiga, esta sentindo este cheiro horrível?"
   "- Qual cheiro, amiga?"
   "- Este, ue... Não sentiu? Não olhe para trás agora, mas sentou um mendigo no bando atrás do nosso"
   Não me contendo e tomando ciência olfativa da mudança que lhes falei nas linhas anteriores, olhei de esguelha para o banco de trás e pousei os olhos em um homem, entre 25 e 28 anos, moreno, cabelos enrolados, maltrapilho da cabeça aos pés descalços, tendo ao colo uma trouxa contendo, muito possivelmente, seus poucos e valiosos pertences.
   Confesso, de fato o homem não cheirava a Hugo Boss ou Givenchy, mas vamos pensar: como poderia cheirar bem se mora nas ruas e - não se sabe por que - não foi ate um abrigo da prefeitura para tomar um banho?
   Cheirar bem, não cheirava, mas ali havia uma pessoa como eu, você ou minha amiga, como sonhos e desilusões.
   (Dirá você: mais desilusões do que sonhos, ne Mariana? Oh, leitor, não julgues um perfume pelo frasco: não sabemos o que vai por debaixo da carcaça de cada pessoa. Quantos sonhos você não realizou? Pois e'... cada perfume no seu frasco)
   Voltando a cena do culto, minha amiga, num gesto que seria natural não fosse o comentário posterior, cheirou seus longos e lisos cabelos e, virando-se com um olhar de indignação, disse-me:
   "- Nossa, meu cabelo vai ficar fedendo, e o seu também!"
   Leitor, leitor, não consegui forçar um sorriso sequer! Com o semblante de descrença frente ao que acabara de ouvir, olhei - com o mais triste e decepcionado olhar que ostentei sem o mínimo esforço - de minha amiga para o preletor, que já ia para suas ultimas considerações.
   E', de fato a mazela social fede.
   As ruas, que guardam tantas e tristes historias de pessoas abandonadas, exalam odores nada bem quistos.
   A humanidade, em seu exemplar desnudo da ditadura da moda, com o perfume da pobreza e da fome e tendo a' sola dos pés um caminho árduo e sofrido, incomoda a classe media-alta.
   Alem de incomodar, impregna na ordem burguesinha estabelecida.
   Alem de impregnar, questiona a fachada crista de ajuda ao próximo (seria um neo-cristianismo com versículos bíblicos próprios para os burgueses perfumados?).
   Talvez aquele homem só quisesse se sentar um pouco.
   Talvez gostasse do ar condicionado, que refrescou por instantes seu calor cotidiano.
   Talvez procurasse Deus.
   Talvez tenha entendido que o melhor lugar do mundo para se estar e' aos pés do Salvador, e neste lugar, amigo leitor, sapatos ou pés sujos e descalços, perfumes caros ou a fétida fragrância da humanidade sem classe, nada importam.
   A alma, amigo, esta sim importa.
   E isto, informo com alegria, vi uma - e pura, ainda - naqueles olhos amarelados e cansados.
   Uma visão privilegiada, tive.

Quando viver se torna uma arte

   
   E debaixo de um sol quente parada em um semáforo que desafiava as leis da paciência, observei quando um homem de cerca de sessenta anos, maltrapilho, com grossos pés descalços e uma faixa vermelha presa em sua testa (que me trouxe a' mente a imagem do Rambo), após uma saudação tirada das artes marciais, começou a executar movimentos de karate em frente aos carros parados.
   Confesso haver estranhado esta imitação tropical de Daniel San, mais ainda quando o pseudo-lutador esparcou em pleno asfalto escaldante e áspero.
   "Que pessoa louca", pensei em voz inaudível ante a inusitada execução dos golpes de luta.
   Mas o que e' a loucura da mente daquele senhor frente a sanidade que este mundo lhe oferece?
   Uma sanidade pautada na indiferença com que moradores de rua são tratados por carros e casas; cujo solo infértil e' calcado diariamente por catadores de lixo e sucatas que ao final do dia pouco mais conseguem do que restos de comida e contáveis trocados; cujo alimento diário e' a barriga vazia de cada brasileiro que repousa seu corpo cansado sob jornais velhos, na expectativa de que o amanha lhe traga ao menos uma ou duas moedas ou um prato de comida quente.
   Melhor a loucura, pois neste mundo a parte ainda se consegue ostentar um sorriso falhado e completo de agradecimento ao receber alguns trocados de uns poucos motoristas.
   E assim aquele lutador de karate imaginário saiu de seu palco embaixo daquele semáforo para o real cenário dos seus dias, onde a única solução que parece haver para sua fome diária e' tentar imitar a arte em lugares ásperos (como a sua vida) e quentes (como e' o prato de comida com que ele sonha a cada noite). 

   Vila Velha, 21 de dezembro de 2010.

Dica

    

   Outro dia pensei haver pegado o caminho certo para o amor. 
   Não atentei para a placa: contramao!       
   Meu coração - condutor desta direçao - sofreu serias avarias, mas paga, sadicamente feliz, ate hoje, a multa por haver trafegado em sentido contrario ao esperado.
   Dica?
   Observe bem as placas de transito.
   E volta e meia - acredite - uma multa não faz mal a ninguém!
   
   (acho que também havia uma placa indicando: "perigo, amor a frente").

   (Campinas, 11 de setembro de 2010)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Recadinho


Para uma garotinha especial, que diariamente lê esta pagina, um recadinho:

"Gabizinha,

Talvez algumas linhas você ainda não entenda... 

Mas sei que seu coraçãozinho de (futura) escritora (da vida, do amor, das perguntas, das ideias mais engraçadas, dos pensamentos mais complicados, dos possíveis machucadinhos que você vai tentar assoprar) um dia vai entender as palavras por trás de cada uma destas linhas. 

Para isso, querida, que existem as entrelinhas: elas guardam o que o tempo poderia apagar do papel, e o que talvez nossa vida não consiga guardar para sempre... 

O que? Segredo, princesinha!

Um dia você vai descobrir! 

Beijos com carinho,

Tia Mari".

Acordes de um compasso regido pelo tempo


   Nunca demorei tanto para chegar em casa. Em nenhum outro momento o caminho de volta de pareceu tão longo e sinuoso.
   Ate tirei os óculos para tentar não ver as lágrimas que se misturavam a chuva que insistia em cair do lado de fora da minha vida.
   Em vão corri noite adentro, com o coração se desfazendo pela saudade que já me cercava antes mesmo de olhar em seus olhos e ver o reflexo da duvidosa certeza de que minha hora de ir embora havia chegado.
   Apenas fui, e tentei enxergar pelo retrovisor um vislumbre dos meus dias de agora há pouco em diante. Não consegui ver nada, apenas momentos ora turvos, ora acinzentados, ora momentos sem momentos.
   E como uma musica de um compasso único preenchido por uma pausa com uma fermata, com ritornelos em seu barulhento inicio e em seu insondável final, assim soou meu caminho de volta para casa.
   Cheguei, por fim.
   Inteira.
   Em incontáveis pedaços.

   (Vila Velha, 22 de novembro de 2010)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Fotografia

Um dia eu tirei uma foto da felicidade estampada em um sorriso. Apareceram seus olhos! 

(nunca deixe de sorrir para que eu nao fique - nunca - sem este seu olhar)

Machucados de infancia


   
   Sinto saudade dos machucados no joelho de quando era criança... Bastava ir chorando em direção a mamãe, fazer uma manha e depois saltitar feliz pelas calçadas com os joelhos ralados e vermelhos de Mercurio (que não ardia mas ainda assim eu pedia para que mamãe assoprasse o dodói). Dias depois nada mais havia do que algumas marquinhas nos joelhos que em nada prejudicavam as brincadeiras ou o andar descuidado de bicicleta.

   Como parecia ser rápida, a cicatrização! 

   Na verdade não sei se, de fato, os machucados saravam mais rápido ou se as feridas eram mais superficiais...

   Mal sabia eu que com o passar dos anos feridas no coração doeriam bem mais do que machucados nos joelhos; que muito embora eu ainda pudesse correr para os braços de minha mãe aos primeiros sinais de dor, ela – com o pesar característico das mães – não teria remédio algum para me dar a não ser me oferecer uma dose de tempo e muitas gotas de paciência. 

   Hoje, quando minha alma se fere nos caminhos que minha vida percorre, eu – com uma saudade incontida e lágrimas nos olhos – olho para os meus joelhos e depois para dentro do meu coração e penso: “vai sarar...”

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um piano, um grampo e duas crianças


Outro dia descobri que tenho o dom de abrir - não seria arrombar? - pianos. Aqui em casa há um piano e a chave dele foi perdida há mais ou menos um par de anos. Eu e Lucas - apresento-te agora, leitor, meu namorado: Lucas -, de posse de um grampo de cabelos e num esforço conjunto misturado com sons de gargalhadas de quem rouba uma bala e sai correndo, conseguimos destrancar o piano. Ah, se eu soubesse antes que as notas (e principalmente os bemóis) tirados daquele instrumento trariam tanta cor aos sons dos meus dias, eu teria comprado uma caixa de grampos há muito mais tempo!!!

...

Enquanto você lê, eu penso em uma maneira de te trazer para o meu mundo... 
Quer ser bem-vindo?

Inverno.



Este inverno foi o pior de todos os anteriores... O vento gelado levou as folhas secas deixadas pelo outono, que eram os últimos resquícios da felicidade trazida pelo verão. Nada como a primavera para derreter a neve que se acumulou nos meus dias!
Encontrei a felicidade escondida atrás de uma porta... Tranquei-a a sete chaves! (vai que ela fugia?)

(Vila Velha, 11 de janeiro de 2011)

Do vazio e outros silencios

    

   Não me ocorre tema algum para escrever. As ideias inquietantes e as discussões intrigantes, estas ficaram deitadas na minha cama. Porta afora veio, hoje, somente - e nesta hora sinto frustra-lo, amigo leitor - um vazio na mente que reverbera no coração; e uma espécie indistinta de apatia que - não nego a você - as vezes me move e me inspira.
   A que, especificamente? Inspira-me (ou me coage?) a parar um pouco, a colocar uma fermata no compasso da pausa. Entendo Marisa Monte ao querer uma pausa de mil compassos, pois e exatamente o lapso temporal que me faria bem hoje.
   E enquanto a pausa cumpre sua função de ausência de som, silencia também minha mente e, paradoxalmente, preenche suavemente meu dia.
   Não se deve viver sempre tão colcheiamente.
   Momentos mínimos também são necessários.
   Mas hoje? Conceda-me licença, leitor: quero ser semibreve. 

(Campinas, 02 de setembro de 2010)

   O que escrever as duas horas da madrugada de uma sexta-feira, com o abajur do quarto aceso e o coração tão cheio da penumbra deixada pela luz que outrora fora felicidade?
   Não sei... Apenas pretendo deixar que as palavras fluam; por si só elas tomarão algum rumo - talvez o caminho de casa, em algum lugar onde a felicidade me aguarda na porta da frente, com uma xícara de café quente e alguns biscoitinhos da sorte. 
   Possivelmente aceitarei o reconfortante café, a fim de recobrar o tino perdido ao longo deste tão extenso caminho. De bom grado aceitarei um ou dois biscoitos mas deixarei a sorte de lado: já terei ganhado o premio máximo.

(Campinas, madrugada nº. 18 do mês de setembro de 2010)



   E se os pensamentos que eu tenho um dia deixassem de ser apenas pensamentos, traria eu mais cor aos dias de quem tiver sua vida por eles tocada? Ou seriam eles hábeis e infelizmente capazes de fazer alguém baixar os olhos e sentir uma lágrima rolar pela face?

   A mente e o coração se comunicam... São como o encontro do rio e do mar, que para diante seguem unidos, em um liame indissociavel.

   Do que meu coração esta cheio?
   Qual o conteúdo dos meus pensamentos?
   Receio, eu, o produto desta confluência?

(Campinas, 15 de setembro de 2010)